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Dalva

Quando levantou, senti um leve cansaço. Três homens de cada lado, seis pessoas carregando outra, deitada, imóvel, sufocada entre flores brancas e um véu idem – pelo o que lembro, antes de fecharem com a tampa. O céu mais azul, o sol mais quente, o tempo mais seco, ecoava o pálido som do silêncio. Mas este silêncio agora morava dentro de Carlos, abafado pela morte da vida. A velha da calçada da frente parou de varrer para olhar o caminho de gente que se formava em procissão à casa dos mortos. Aquele olhar, que já tudo vira na vida, acompanhava com vivacidade cada passo. E cada segundo da não-mais-vida de Carlos se tornava um momento de pura lucidez para a velha do vestido rosa. O átimo era sagrado, um pedaço de tempo que não voltaria mais. Limpou os lábios levemente com a língua seca, piscava os olhos pesadamente, cansada, parada, inerte. Dalva segurava minha mão com a rigidez de uma pedra íngreme, talvez com a mesma leveza que conduzia a sua doce vida. Acometida por uma lástima que jamais irá perdoar, sentiu o peito doer quando soube que Carlos partira. Já não mais vira o chão, o céu apagara-se como chama que se finda, pausara o tempo à revelia, a respiração profunda, pesada – era uma vida dando adeus, uma construção desmoronando, não há para onde ir. Os passos dos seis homens ficavam mais largos, Carlos se aproximava do seu fim.

As lágrimas já não doíam tanto, mas o que incomodava era o não-dizer, que agora não há mais alvo. Dalva deveria ter dito, não disse, Carlos não ouviu. Ele fechou os olhos ontem pela última vez, não abrirá mais, sentidos cessaram-se. Ficará jogado a fé? Carlos ouvirá? Jamais – eu queria dizer. Levará consigo a dúvida de um amor. No leito, inconsciente, não se sabia se ele ouvia, se sentia, se via. Era um corpo parado, apenas coração batendo e Dalva ao lado, baixinho, disse te amo, quase um sussurro proibido, acompanhada de melancolia e da descoberta da vida. Dalva viu o mundo brilhar no instante que a chama de Carlos se apagou. Foi como um brilho forte; um último suspiro de vida. Apagou.

A inércia da vida morta. Pegou a mão dele, segurou-a, foi embora. Mas naquela procissão, apoiando-se em mim, jogava o peso do corpo, num pedido de socorro. - Dalva, acorde. Resista. No que ela respondeu: - Não quero o peso de resistir. Estou cansada. O que é viver? Carlos findou. Viverei com a falta. Não somos nós a constante falta um do outro?