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Ana

Ela chegou a casa nua. Mas não despida de roupa. A sacola que trazia na mão foi direto para o sofá, talvez junto com o ímpeto de viver ali, naquela casa tão cheia de vida. O relógio fazia o tique-taque de sempre, o caminhar reto e incerto. Chegaria ao lar e veria o marido dando o jantar para a filha, um ovo cozido e pedaços de carne. A filha no colo, os bracinhos dela tão rápidos e ativos, colheradas na boca. A irmã sentada à mesa saboreando um pedaço de pizza, certamente feito pelo chef italiano na esquina da casa dela. Perguntou-se se ele comemora o Natal e o Ano Novo sozinho ou com a família. É que soubera de um assassinato meses antes perto de casa. Mas Ana não era muito atenta às notícias, preferia saber como está a sua filha, se dormiu bem, se brincou com o artefato que trouxeram de uma viagem à Milão no ano passado. O objeto, que tinha um corda, não tinha um arranhão sequer. Joaquina não havia brincado direito, então, pensou. Ela quebrava todos os brinquedos.

O marido reticente à mesa, Joaquina olhava as paredes da cozinha como maravilhada pelas cores desbotadas de creme meio bege, Ana desconfiada na cadeira, com uma colher na mão, ainda com a roupa do corpo - aquela com a qual chegara a casa nua. Eu não te amo mais. Soou como um barulho de tiro certeiro, atravessado, passou de raspão nele. Ele ouviu, assustou-se, soube do que se tratava e parou suspenso no tempo. Seus olhos procurando constantemente um foco que sempre esteve ausente, não achava, um gole de algo ausente descia a garganta. Ana sentiu-se, de repente, perto de onde queria estar, há anos, desde quando subitamente disse sim ao marido. Disse incerta, calada, imaginou um mundo grande, cheio de sonhos inúteis, uma casa com um jardim verde e imenso, buganvílias de todas as cores enfeitavam as paredes do grande portão, bancos de jardim do século 16 protagonizam um ambiente pitoresco de vida pacata, bonita, natural, como um quadro de impressionismo francês.

O átimo do não te amo mais perdura. Mas Ana chegou nua a casa e dela sairá assim. Perdeu na rua a roupa da amargura que azedou sua liberdade. Foi apenas uma confirmação, disse a si mesmo, em silêncio. Agora livre, como saída de um casulo, atravessou a cozinha com a chave da casa na mão, sentiu a brisa de uma manhã quente no rosto e abriu a porta da rua.